Metodologia de treino

Metodologia do treino em futebol em função do modelo de jogo.

 

“Jogar futebol é muito simples, mas jogar um futebol simples é a parte mais difícil do jogo.” — Johan Cruyff

 

 

O futebol é um desporto colectivo de cooperação e oposição de respostas abertas, ou melhor dizendo os estímulos que o caracterizam mudam constantemente apresentando um estado de grande incerteza onde não existem duas situações iguais sendo fundamental a capacidade de percepção e decisão dos seus intérpretes.

Antes pensava-se que o aumento das capacidades físicas e técnicas as equipas ganhariam mais supremacia sobre as outras, mas como tudo na vida muda e evolui, hoje consegue-se perceber que se pode obter um melhor rendimento através do aumento da capacidades tácticas colectiva e individual assim como da psicológica.

Perante isto, este artigo tem apenas a pretensão de chamar a atenção da necessidade que o treinador hoje em dia deve ter uma clara ideia de jogo em todos os seus momentos. Na própria ideia de jogo do treinador verifica-se a necessidade de criar especificamente as suas próprias ferramentas de forma a operacionalizar essa sua essa mesma ideia no entanto dentro de uma metodologia clara e precisa.

 

"Os métodos de treino são unidades metodológicas de programação, potencialmente capazes de melhorar a capacidade de rendimento dos jogadores e das equipas no quadro competitivo" — Jorge Castelo.

 

Estrutura do Futebol

 

Definindo o modelo táctico ou seja a disposição sobre o terreno como a matriz para um conjunto de comportamentos individuais e colectivos que se pretende aplicar ao longo do desenrolar do jogo levando sempre em linha de conta as características dos jogadores, ou seja um conjunto de sinais que vão definir a organização táctica da equipa. Portanto, o importante é ter uma ideia e saber como aplicá-la.

 

Metodologia de Treino

Quando desenvolvemos a apresentação deste artigo apenas como uma pequena introdução teórica com base na concepção de tarefas para uma metodologia de treino neste caso direccionada ao Modelo de Jogo tem como objectivo de orientar os jogadores a desenvolverem ao máximo nível e de forma interrelacionada as capacidades físicas, técnicas, tácticas e psicológicas que um sistema táctico de jogo possa requerer, para que a equipa responda rapidamente de forma organizada e eficaz em cada situação que o jogo lhe apresenta.

 

 

A organização táctica pode-se defini-la primeiramente em quatro momentos de base, as Fase Ofensiva/Transição Defensiva/Fase Defensiva/ Transição Ofensiva (podendo colocar o quinto momento se consideramos os esquemas tácticos ofensivos e defensivos) e os seus conteúdos mais importantes que os podem caracterizar que devem ser conjugados coerentemente no plano de treino em função do modelo de jogo.

Com certeza não vais treinar a defesa em bloco baixo se quiséssemos fazer pressão alta ou não querer jogar em contra-ataque quando não temos jogadores rápidos na linha de ataque. Parece-nos fundamental existir uma organização táctica coerente como ponto de partida para organizar todos os conteúdos em função do modelo jogo que se pretende.

 

 

“Hay frases que he escuchado y que no las creo. ‘Hay que correr poco, el que debe correr es el balón’, por ejemplo. No: aquí hay que correr mucho. Soy menos romántico de lo que a muchos les parece” — Pep Guardiola

 

Portanto antes é importante definir como se vai defender para perceber que características na Fase Ofensiva se vai adoptar (Directo -Combinado- Ataque rápido ou Contra ataque) e em que fases (Construção - Criação ––- Finalização) e com que objectivos (Ocupar racionalmente o espaço - Progressão no espaço - Mantimento da posse de bola –Circulação da bola-  Atrair o adversário etc).

 

 

Não é menos importante a Transição Defensiva estar organizada em função de como ataca e perceber se o vai fazer numa recuperação rápida da posse de bola ( Não ceder terreno - pressing na zona de perda - pressing ao portador da bola) ou de uma forma mais lenta ( Cedendo tereno para se reorganizar perto da sua baliza).

 

Características de um modelo de ataque

Ataque directo

  • Tempo de Posse de bola curto
  • Participação de poucos jogadores
  • Ocupação do espaço em Amplitude e Profundidade
  • Preferencialmente jogo aéreo e em diagonal

    Ataque combinado

    • Tempo de Posse de bola prolongado
    • Participação de um número elevado de jogadores
    • Ocupação do espaço em Amplitude e Profundidade
    • Três fases de jogo bem definidas Iniciação /Criação/Finalização
    • Circulação rápida da bola

     

     

     

    “Não acredito muito nos sistemas de jogo que têm a sua origem no gabinete, na reunião, na conversa com os jogadores. Acredito no treino, na explicação, na repetição sistemática” — José Mourinho

     

    A Fase Defensiva fazendo parte de um todo baseando-se no modelo defensivo adoptado em função também de como se quer atacar com o objectivo de anular as acções ofensivas adversárias, como exemplo uma marcação á zona pressionante com linhas muito juntas em Zona alta , Zona Intermédia ou Zona baixa tentando ganhar a bola rapidamente ao portador ou orientando o adversário  para zonas ou sectores do campo que proporcionem uma transição para o ataque no momento da recuperação da bola mais vantajosa com  maior ou menor desgaste físico e psicológico em função da dinâmica do jogo.

     

    Objetivos de um sistema defensivo

    Fases

    1. Momento da perda da posse de bola 
    2. Recuperação 
    3. Pressão sobre o adversário

      Objetivos
      1. Ocupação racional do espaço
      2. Recuperar a bola o mais rápido possível 
      3. Evitar a progressão do adversário
      4. Evitar o golo

       

      A Fase da Transição Ofensiva é o primeiro momento que define o ataque seja ele em Ataque rápido ou Contra-ataque caracterizando-se por desmarcações de jogadores rápidas – progressão da bola rápida e em profundidade com participação de poucos jogadores ou em Ataque combinado progredindo de uma forma lenta dando maior enfase á posse de bola com circulação rápida mas pouco profunda.

       

      Princípios da Fase Ofensiva e Transição - Ofensiva

      • Mobilidade
      • Velocidade
      • Rápida circulação da bola
      • Amplitude
      • Profundidade
      • Progressão de jogadores
      • Equilíbrio

       

      A metodologia de treino em função de um modelo de jogo além da táctica deverá sempre respeitar os princípios da fisiologia do treino no entanto não deve ser copiada mas sim personalizada através da experiencia vivida e da criatividade do treinador porque o que resulta numa matriz de grupo pode não resultar noutra diferente.

      Em nosso entender o desenvolvimento de um metodologia de carácter global em função do modelo de jogo pode ser uma opção válida e mais próxima da realidade do jogo tomando-a como o ponto de partida caracterizando-se por:

       

      • Concepção da táctica, técnica, preparação física e preparação psicológica como um meio de desenvolvimento colectivo nos 4 momentos do jogo.
      • Procura da adaptação do jogador de forma inteligente às acções próprias do modelo de jogo.
      • Procura de aspectos que vão desenvolver o Modelo Táctico
        • Relação do jogador com a bola
        • Relação e colaboração (Táctica Ofensiva e Defensiva)
        • Relação de oposição (Táctica Defensiva)
        • Relação do jogador com o espaço e tempo (Condição Física)
        • Atenção e concentração (Psicologia)
      • Criar situações reais de jogo.
      • Prevalecer a qualidade de treino ou seja, a intensidade sobre o volume de treino.
      • Máxima transferência do treino para a competição.
      • Máximo nível de motivação dos jogadores.

       

      Essas características devem estar organizadas dentro de uma planificação e suportadas por uma estrutura que lhes possa dar consistência dentro uma linha mais convencional organizada no Microciclo Estruturado ou adoptando a Periodização Táctica como metodologia de treino.

       

      • Exercícios como unidade básica.
      • Unidades de treino compostas por exercícios
      • Microciclos  compostos por unidades de treino
      • Macrociclos compostos por vários microciclos.

       

      A organização dos conteúdos dos exercícios de treino em função do modelo de jogo é a maior preocupação a levar em linha de conta necessitando encontrar uma lógica para os objectivos a perseguir ou seja definir o Momento do Jogo/Princípios/ Sub princípios/Sub-sub princípios que o treinador pretende treinar.

      Sendo a unidade básica ou melhor, o exercício a ferramenta principal de operacionalização do treino que requer voltando a repetir-nos por parte do treinador o maior cuidado ao ser elaborado e estruturado, devendo conter identidade e especificidade como características fundamentais, ao mesmo tempo não serem contrastantes com outros pois devem ser uma parte lógica de umtodo quando inserido dentro de um planeamento de treino.

      Seguindo este raciocínio e acreditando que independentemente da sua tipologia ou taxonomia dos exercícios que são as suas características responsáveis pelos automatismos criados nos atletas que facilitam o transporte para o jogo dos seus conteúdos.

       

      Características da unidade básica do treino (exercícios)

      • Exercícios de colaboração e oposição 
      • Situações condicionais de espaço e tempo.
      • Situações de igualdade/superioridade/inferioridade numérica 
      • Redução do espaço e numero de jogadores
      • Estar sempre presente nos seus conteúdos as características do modelo de jogo.
      • Devem ser competitivas procurando o sentido de vitória.
      • Se programam em função dos quatro momentos do jogo.
      • Devem ter uma carga fisiológica em função da unidade de treino e microciclo semanal.
      • Se programam em função do jogo anterior e do próximo jogo.

       

      É aqui que entra a criatividade e percepção do treinador do que a sua equipa necessita prescrevendo o treino para os objectivos que pretende.

       

       

      No desenvolvimento da planificação de um programa de treino baseado no modelo de jogo então poderíamos criar uma bateria de exercícios proposta segundo um modelo espanhol de Javier Lopes Javier os quais não iremos especificar como:

       

      • Rondos-técnico-táticos
      • Jogos de posição
      • Quadrados
      • Retângulos
      • Jogos condicionados
      • Jogo livre
      • Situações ataque x defesa
      • Situações defesa x ataque
      • Situações de transição ataque x defesa
      • Situações de transição defesa x ataque
      • Esquemas tácticos

       

      Portanto concluímos que a especificidade encontrada na dinâmica do próprio jogo é ponto de partida para a Metodologia do Treino em Futebol em Função do Modelo de Jogo que assenta sempre em conceitos – chave do próprio treinador. Dentro desta concepção é a premissa fundamental para a construção de uma forma de jogar e consequentemente construir o treino.

       

      Bibliografia

      • Entrenar en Función del Modelo de Juego, Javier Lopes Javier
      • Prepara il Piano di Allenamento, Marco Giunta
      • Futbol-Táctico, Andoni Bombín
      • Futebol ,Actividades Físicas e Desportivas, Jorge Castelo
      • Planificación Táctica de la Pretemporada, Pasquale Casa basile
      • Fútbol,La Contrución de um Modelo de Juego, Marco Monteleone/Miguel Ángel Ortega Jimenez
      • Desenvolvimento do jogar segundo a Periodização Táctica, Marisa Silva
      • Tactical Peridization, Pedro Mendonça
      • La Definizione di Modello de Gioco, Magazine le Allenatore
      • La Peridiozzazione Táctica, Renato Montagnolo
      • La periodizzazione dei carichi di lavoro specifico: dal macrociclo al microciclo. Francesco Carchedi
      • Prepararsi al meglio per la nuova stagione. Giovanni Mussa
      • Tareas para la construcción de un modelo de juego en fútbol, Antonio Cruz Cárdenes

        Comentários

        • Fd
          Francisco Batista de

          Muito bom 👏⚽ artigos

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        Jaquim Alberto